quinta-feira, agosto 23, 2007

Febra de Goblot

...la richesse assure des loisirs que le bourgeois a utilisés pour faire des études et accroître sa valeur personnelle...

Goblot, E. (1967 [1925]) La barriére et le niveau: étude sociologique sur la bourgeoisie française moderne. Paris: Presses Universitaires de France, p. 104.

Posta de Proust

Para ele [o letrado], um livro não é o anjo que levanta voo logo que ele abriu as portas do jardim celeste, mas um ídolo imóvel, que adora por ele próprio, que, em vez de receber uma dignidade verdadeira dos pensamentos que desperta, comunica uma dignidade fictícia a tudo quanto o rodeia. (...) considero doentio este gosto, esta espécie de respeito fetichista pelos livros...

Proust, M. (1997 [1905]). O Prazer da Leitura. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 45-46.

terça-feira, agosto 21, 2007

Fatia de Russell

Há dois motivos para se ler um livro; um, o próprio prazer da leitura; o outro, a possibilidade de alardear conhecê-lo.

Russell, B. (1997 [1930]). A Conquista da Felicidade. Lisboa: Guimarães Editores, p. 52.

domingo, agosto 19, 2007

Naco de Proust

[Entre os letrados] ignorar um determinado livro, uma determinada particularidade da ciência literária, será sempre, mesmo num homem de génio, uma marca de grosseria intelectual. A distinção e a nobreza consistem na ordem do pensamento também, numa espécie de franco-maçonaria de costumes, e numa herança de tradições.

Proust, M. (1997 [1905]). O Prazer da Leitura. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 56-57.

sexta-feira, julho 13, 2007

Viagem imóvel: da lisonja viril à virilidade servil

A erudição é um número de circo. A memória amestrada faz truques, o público aplaude, o amendoim ou o bife não tardam. Paradoxalmente, a erudição é também bravata, testosterona, masculinidade. O MC e o scholar são um só tipo humano, diferindo apenas no acessório que é essencial: a posição social. A bibliofilia e o tuning são um só comportamento humano - entusiasmo - e cumprem uma só função - alimentar bravata. O entusiasmo é a proteína, a bravata o músculo. E o músculo, todos sabemos para que serve.

terça-feira, julho 10, 2007

voluntarismo, s. m., característica daquele que é voluntarioso.

voluntarioso
, adj., caprichoso; teimoso; rebelde; que pretende impor a sua vontade.

Dicionário Língua Portuguesa On-Line


Não são mimos e tenho hoje razões para crer que sejam termos utilizados amiúde em conversas sobre a minha pessoa. Parecem-me contudo descritores adequados. Parte de mim é sensível a parte do corpo ideológico da Ayn Rand. Antes a hubris que a hebefrenia. Antes a mania que a abulia... e depois há resultados, coisas que se materializam. E a materialização, paradoxalmente, anima.

Infelizmente, este é também o bilhete (ou um pretexto?) para maus sentimentos para com as diversas estirpes de underachievers (segundo o meu padrão de expectativas, claro!) com que me vou confrontando no dia a dia. Mas não hoje: uma hora de ginásio sublima a agressão na combustão sem chama da respiração celular e ao escrever esta última linha na varanda, gozando o sol do entardecer, já os fumos se dispersam ao vento.

sexta-feira, julho 06, 2007

Assalto aos EUA

Ao ver o trailer do Die Hard 4.0 fiquei como que ofendido pela aparente traição ao modelo do huis clos. No trailer há cenas que se passam em ruas e viadutos, sob o céu. Fui ver o filme e tive de dar a mão à palmatória. O filme - desigual, melhor na bravata inicial e em derrapagem blockbusterizada para o fim - explora a claustrofobia de um país inteiro tomado refém. Espero que se apercebam de que John Hughes é o realizador ideal para o 5.0.

sábado, junho 23, 2007

Naco de Hoggart

They [the mass media] will flatter us that we live in a stable and sane society (which is an exaggeration)...

Hoggart, Richard (2005) Promises to Keep. Thoughts in Old Age. London & New York: Continuum, p. 28.

terça-feira, junho 19, 2007

Vendo o Heroes

Será um arquétipo ainda um arquétipo quando é conscientemente interpolado no texto? Tipos como Tim Kring ou George Lucas são demasiado bem lidos para fazerem as coisas de forma ingénua. No Heroes isso é bastante claro na personagem de Hiro, cujos apartes denotam uma reflexividade que é também necessariamente do autor. Será que produtores culturais demasiado conscientes de si próprios, informados por uma metanálise do campo, tendem para a cristalização ou, pelo contrário, cumprem requisitos de inovação? A pergunta é extensível a toda a actividade humana.

domingo, junho 17, 2007

Ota

Há um estudo particularmente pertinente que ainda se encontra por fazer: apurar a quem pertencem os terrenos mais beneficiados por cada uma das alternativas de localização do novo aeroporto. É o tipo de coisa que facilmente degenera num processo de intenções, mas também do mais elementar serviço público.

segunda-feira, junho 11, 2007

Iluminação

Talvez o sonho americano seja uma fraude em pirâmide, um esquema de desenvolvimento não sustentável no qual o rendimento do pessoal que entrou primeiro (e os primeiros de todos foram os WASP do Mayflower) só é possível a expensas dos novos entrantes. Cortem a imigração e a coisa desmorona como um castelo de cartas. Aliás, abram um processo contra o Estado americano num tribunal americano e terão o mesmo efeito.

segunda-feira, junho 04, 2007

infância e história


Era tão bom que a idade adulta estivesse já ali ao virar da esquina. Poupar o fascismo da infância e da adolescência. Do gozo obsceno dos fortes e da humilhação dos fracos.

The horror, the horror.....


Stephen King? John Carpenter? Filmes com o diabo? Esqueçam. Querem sentir medo? Leiam isto.

a paralaxe



A empatia é uma arma política brutal. Quem duvida que, acaso fossem os agentes do FBI os heróis, Tony Soprano seria um personagem detestável? Uma ligeira deslocação do olhar é quanto basta para mudar o mundo. Não, isto não é epistemológico. É ontológico.

sexta-feira, maio 25, 2007

Cores-de-Maio-quando-chove

Passo tanto tempo em frente a um ecrã que um prosaico passeio a pé adquire laivos de trip alucinogenada. Tudo o que encontro pelo caminho é exótico e as cores, em particular, são hiperreais na medida em que transcendem a paleta que naturalizei.

domingo, maio 13, 2007

A reprodução social numa casca de noz

Pérola ouvida no Basta ao irmão de um amigo: «Gosto muito de casas assim. A minha família tinha algumas». Sabia, porque não o podia ignorar, que a família tinha pergaminhos. Nunca tinha era considerado que entre estes poderia estar o papel-moeda. O uso do pretérito nesta frase-chave pode sugerir que a reprodução cultural foi mais bem sucedida do que a económica. A imperfeição do pretérito qualifica essa sugestão.

quarta-feira, abril 25, 2007

perdido de volta



Da badana:

Miguel Gullander é um jovem escritor português de origem sueca. Traduziu, do sueco para o português, as sagas viking, e, a partir do inglês, poesia zen. Foi professor de português na Ilha do Fogo, em Cabo Verde, e na capital de Moçambique, Maputo, estando actualmente a residir em Benguela, Angola, como docente da Universidade Agostinho Neto. Neste romance, aproveita o seu profundo conhecimento do imaginário viking e da fi losofi a zen, bem como a sua vivência em África e na Índia, para nos arrastar através de uma viagem alucinante entre o Fogo, Lisboa e Mumbai. Eis um romance capaz, como poucos, de abalar convicções e de destruir ideias feitas. Cruzam-se, nestas páginas, vidas muito diferentes: uma aeromoça, já não tão moça assim; um professor de português em África; um especialista em desenvolvimento; um dealer; um velho pedófi lo. Num perturbador jogo de espelhos, todos eles se reencontram noutras vidas, noutros destinos, noutras geografi as, vítimas do grande Maelström (o remoinho gigante das lendas escandinavas), que tudo suga e dispersa. Perdido de volta romance absolutamente original no panorama da literatura em língua portuguesa, anuncia um nome que importa fixar: Miguel Gullander.

José Eduardo Agualusa

terça-feira, abril 10, 2007

Pearls Before Breakfast, artigo do Washington Post

Este fantástico artigo do Washington Post não é apenas o mais notável trabalho jornalístico de que tenho memória, como também constitui um desafio exemplar à ciência social irrelevante e enfadonha à qual nos tendemos a acomodar.

sexta-feira, março 23, 2007

Grandes Portugueses - A Sabedoria do Autocarro Telefónico

A Marktest admitiu como passageiro no seu autocarro telefónico a pergunta "quem foi o melhor português de sempre?", ou coisa que o valha. Para verem os resultados, cliquem no título desta posta.

Antes de mais, note-se que a Marktest telefonar para casa das pessoas e as pessoas telefonarem para a RTP são duas coisas totalmente distintas, razão pela qual tenho a maior dificuldade em aceitar que estes resultados sejam bons preditores do desfecho do concurso "Grandes Portugueses".

Dito isto, D. Afonso Henriques ganha com considerável vantagem, o que me parece meramente lógico, visto que o primeiro português é condição necessária de todos os demais e, como tal, causa de qualquer grandeza subsequente.

Mas há mais e mais interessante: as figuras polémicas da história contemporânea associadas a projectos totalitários rivais são cada vez mais escolhidas à medida que a classe social dos inquiridos decresce, passando-se o inverso com as figuras históricas da época de áurea e com Aristides de Sousa Mendes, que surge em oitavo para o povo mas em quarto para as elites. Curiosa também a clara feminização da apreciação por Pessoa.

sábado, março 17, 2007

O humor contra o nazismo

De há uns dias a esta parte que me preocupa a aproximação da estreia da insidiosa peça de propaganda criptonazi que será certamente a adaptação cinematográfica da novela gráfica 300, de Frank Miller. Como lidar com uma coisa destas sem lhe aumenar a saliência e, por consequência, o efeito? Talvez pelo ridículo. Andava já a pensar em escrever aos Gato Fedorento sugerindo-lhes que o fizessem quando uma amiga me chamou a atenção para esta crítica do Guardian (clicar no cabeçalho). Sinto-me um pouco mais aliviado.

quinta-feira, março 15, 2007

Asneira

A segunda lei da termodinâmica é aplicável a si mesma quando a confundimos com a terceira. Nessas circunstâncias o caos interno do sistema decididamente sobe. Claro que se fomos nós próprios a entropiar desta forma, em público, e a disso nos apercebermos espontaneamente, em privado, uns minutos depois, a coisa torna-se legível através do conceito de lapso freudiano. Tendo assim entrado num jogo de analogias entre psicanálise e física, para o qual não disponho de qualificações mínimas em qualquer das vertentes, rapidamente me ocorre acoplar o Thanatos e a segunda lei. Googla-se a coisa e dá bingo. Anamnese? Processo inconsciente? Prefiro as reverberações políticas da segunda alternativa. Ou melhor, não as conheço mas rejeito as da primeira, que são de platonismo e, como tal, inscritas no eixo do mal: licurgo-esparta-fascismo.

quarta-feira, março 14, 2007

O Lobo

O mais importante galardão da literatura em língua portuguesa - prémio Camões - vai para António Lobo Antunes que afirma simplesmente "fico contente por se lembrarem de mim".

Outra boa questão

Qual a credibilidade de um misarca ungido pela hierarquia, de um rebelde entronizado pelo status quo?

quarta-feira, março 07, 2007

Parabéns RTP, nesta data querida...

A Rádio Televisão Portuguesa faz hoje 50 anos. Ao fazer um zapping pelos muitos canais que existem cá em casa - 4 - detive-me na festa que o canal 1 oferece hoje às muitas personalidades que por lá passaram e fizeram a sua história.

Não resisti à tentação de rebuscar as minhas memórias em busca da mais antiga e, lá estava ele, encantando-me com bonecos estranhos e mágicos. Sim, ele mesmo, a rtp, para mim, nasceu com o Sr. Vasco Granja. Obrigada RTP.

segunda-feira, março 05, 2007

Do livre e servo arbítrio; da ciência e da literatura; das duas ambiguidades

Estive na sexta-feira a assistir a uma conferência na qual uma vez mais se procurava atingir algum equilíbrio entre os papéis da estrutura e da acção nos modelos das ciências sociais. A apologia da acção parece-me eivada de romantismo: a preocupação com a dignidade da pessoa humana, o cuidado em conferir-lhe o estatuto de sujeito e negar-lhe o de objecto, a ansiedade que transparece face às implicações éticas e políticas do determinismo... tudo isto revela de um projecto que é antes de mais político e só por acaso epistemológico.

Ora, eu revejo-me nesta coisa política mas impingi-la no quadro teórico e metodológico do que se quer uma ciência seria patético se sincero. Só não o é porque o partido da acção nem sequer quer uma ciência: quer literatura. O que é legítimo. Eu próprio me figuro como tendo mais queda para a literatura do que para a ciência. O que está errado é querer fazer literatura ao abrigo do prestígio e dos financiamentos da ciência. Há um campo literário semi-autónomo com oportunidades e recompensas específicas. Quem quiser fazer literatura, que o tente em sede própria.

É certo e sabido que, em termos de génese histórica e de recrutamento social, as ciências sociais se posicionam entre a ciência e a literatura. O partido da acção é claramente de tal forma pró-literário que dificilmente aceitará sequer o rótulo "ciência". Não é difícil adivinhar que provas específicas terão feito para aceder à universidade ou que fazem parte da vasta maioria de alunos do secundário cuja motivação na escolha da via de ensino foi, antes de mais, o horror sagrado à matemática. Enfim, não lhes invejo as ambiguidades.

Por outro lado, como tomar o partido da estrutura sem cair no maquiavelismo mais crasso, sem pôr e dispor dos outros como peões? Talvez Orwell estivesse errado ao associar o duplipensar ao totalitarismo. Talvez duplipensar de modo a conciliar ser-se partidário do determinismo da estrutura em ciência e do livre arbítrio da acção em política e ética privada seja afinal a mística terceira via que através do paradoxo leva à virtude.

domingo, março 04, 2007

Sir Connery

Este homem é uma caixinha de surpresas. Mais um para acrescer a lista dos motivos pelo quais ele é um homem muito apreciado... Sean Connery no concurso para Mister Universe

sábado, março 03, 2007

Dois sins

Sim, Paulo Moita Macedo tem prestado um serviço excepcional e sim, deve sair se é a remuneração mais do que - já nem digo o igualitarismo - o patriotismo a motivá-lo a servir.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

The Lives of Others - Rotten Tomatoes

The Lives of Others - Rotten Tomatoes
Está bem fresco! Afinal, este filme fenomenal acabou de ganhar o óscar para melhor filme estrangeiro e já havia ganho 3 prémios do Cinema Europeu, a saber, Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor Argumento, para além do prémio do Público nos festivais de Locarno e Vancouver.
A não perder.

sábado, fevereiro 24, 2007

Roupa Nova

O BARdoTODOL abre portas vestido de primavera, antecipando-a. Sejam bem-vindos.

Globos de Ouro 2007

A frase: "2,2 million people stopped the major city in Europe to make a queen return; what do we have to do when it's really important...?"

terça-feira, fevereiro 20, 2007

toma lá musica: Koop

Desde que os ouvi em Madrid o ano passado, não mais os larguei. Um must.

Da atribulação à atribuição

Alguma atribulação na migração do blog para uma conta Google resultou na atribuição à minha persona de todos os posts antigos da Promethea. Contamos ser breves na resolução destas dificuldades técnicas. Retomaremos a emissão dentro de momentos.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Refresco


Desculpa lá Anita, mas está mais do que na hora de baixar o teu índice de popularidade neste blog. O novo ano entrou e vamos começar a agitar estas águas.
Acho que estamos a precisar de um refresco....

sexta-feira, novembro 03, 2006

Medeia Card - A Prairie Home Companion - Bastidores da Rádio

Um espectáculo da rádio encenado num teatro e projectado no cinema.
As perdas que os ganhos dos tempos modernos arrastam!
Elenco de luxo e banda sonora espectacular. Traz à memória os jingles publicitários e lembra até algo que não pensei vir a recordar com saudade, os Parodiantes de Lisboa. Tudo isto envolvido num registo cómico de “film noir”, em que um dos protagonistas (e narrador) desempenha o papel de detective falido. A coisa vai mais longe com o trocadilho do nome desta personagem: Guy Noir.

Gostei muito!
****

Medeia Card - Marie Antoinette

Durante o filme Marie Antoinette vi, por breves segundos, um par de ténis All Star misturados com uma série de sapatos do século XVIII que a rainha ia experimentar. Das pessoas que estavam comigo ninguém apanhou a cena. Perguntei a outras que tinham ido ver o filme e também ninguém viu. Cheguei a pensar que tudo não passava de uma alucinação fruto da amálgama de cenários da corte francesa harmonizados com músicas new wave/ neo-romantic de bandas como o New Order e Bow Wow Wow. Mas afinal a cena é real, está lá:
"Anachronisms: In the scene where Marie Antoinette is going through her shoes while preparing for a big party you see a pair of Converse All Star 1923 Chuck Taylor basketball shoes for about one and a half seconds." (in http://imdb.com/title/tt0422720/goofs)
Gostei dos cenários, achei a música especatular e a actuação da Kirsten Dunst, é como habitualmente, boa! Do filme, gostei, não adorei!
***

Do King Card ao Medeia Card

Em Março ou Abril de 2005 comecei neste blog uma rubrica intitulada King Card. Nela falava dos filmes que tinha visto com o "passe de quem não passa sem cinema" e opinava acerca deles. Entretanto, dada a frequência com que comecei a ir ao cinema deixei-me disso. Tinha lá tempo para escrever acerca das dezenas de filmes que um ano e tal de Kingcard me havia proporcionado! Vi tanto filme, bons e maus!

Agora, para mim, acabou-se o King Card. Zangaram-se as comadres e tive que optar entre as óptimas salas de cinema do Alvaláxia e os filmes que quero ver no King, Monumental e Residence (são estes que visito, sobretudo!). Optei pelos filmes e sou agora titular do Medeia Card. Assim, durante algum tempo vou voltar a falar de filmes. Desta feita numa rubrica intitulada Medeia Card.

quinta-feira, novembro 02, 2006

À descoberta das Ilhas Koop

Fomos a Madrid na sexta assistir à conferência do Eurobarómetro (o que só por si daria azo a uma posta de prosa) e ficámos para o fim-de-semana. Aproveitámos para comprar uns trapitos no mercado de Fuencarral e a minha cara-metade (só privilegiados têm ouvido igual ao seu, eu possuo apenas o que Deus me deu) apanhou uma melodia no ar, entrou na discoteca e pediu o CD. Temo-lo ouvido on repeat ever since. É só clicar no título desta posta para soltar amarras...

segunda-feira, outubro 30, 2006

The joke is on me

Acabo de ser fulminado por uma iluminação. O meu monólogo interior fluía como usual, fustigando alguns colegas pela sua reverência a mestres gnómicos (no sentido de crípticos ou obscuros). Ocorreu-me então que mestre gnómico, só admitia um: Yoda! Pensei então que Yoda não merece verdadeiramente o apodo, que é até mesmo bastante inteligível. Podia ter passado ao lado da verdade mas entretanto luziu em mim o entendimento: YODA É UM GNOMO. Acabei por ter de concluir que a própria personagem Yoda é uma piada antropomórfica (gnomomórfica) acerca de mestres gnómicos, uma piada que me havia fitado olhos nos olhos durante a maior parte da minha vida e que eu até hoje tinha sido demasiado tacanho para entender. Pontuação final: George Lucas - 1, Frater Caerulus - 0.

terça-feira, outubro 24, 2006

Como falar de intencionalidade sem sujeito; de estratégia sem estratega?

Dreyfus, Hubert e Paul Rabinow (1983) Michel Foucault: Beyond Structuralism and Hermeneutics. Chicago: The University of Chicago Press, p. 187, tradução minha.

quinta-feira, outubro 19, 2006

"When we eat whale, we don't eat it to enjoy. We eat it to remind us who we are." diz-nos um mestre-escola Islandês citado pelo Guardian.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Charles Hoy Fort, epistemólogo supremo cujo cepticismo excede mesmo o de uma comissão de inquérito do Vaticano, não tem sido suficientemente celebrado pela elegância da sua prosa. Bem haja.

Grande

Só o Contrainformação oferece paralelo à entrevista de Alberto João Jardim à Média XXI. O rei vai mesmo nú e estas são vozes autorizadas a dizê-lo.

segunda-feira, outubro 09, 2006

I beg to differ

Notas avulsas sobre Lady in the Water. Amo o huis clos de John Hughes a John McClane. Parece-me inquestionável a mestria com que foi fotografado e montado. As performaces são uniformemente boas. O casting é perfeito e chega mesmo ao ponto de incluir o melhor actor do mundo: Jeffrey Wright (acho piada que se tenha em boa conta canastrões que se levam a si mesmos de papel em papel [the name Nicholson comes to mind]; nas personagens de Wright não há qualquer resíduo de Ego, não há sequer um ar de família que as una; é certamente isso ser actor). Que mais? A história é de embalar. Alguém estava à espera do Ace in the Hole?

segunda-feira, outubro 02, 2006

Obra de juventude

Fiz este mapa há uns anos atrás. Tinha-o esquecido. Encontrei-o hoje online. Pareceu-me vagamente familiar mas não o reconheci como meu até ler a legenda. A memória é estranha, se possível.

Mais números negros à Portugal

E depois só vejo gente preocupada com questões trendy como a etnicidade, o género ou a orientação sexual. E a miséria, porra? E a boa velha classe social? São factos da natureza?

sábado, setembro 30, 2006

Posta das 'Confissões de um Artista da Treta'

She was glad to have me baby-sit and play with the girls, but she did not approve of my mixing into the continual quarrels that the girls had with each other. She had always simply let them fight it out, but I soon saw that the older girl, being more advanced intellectually and much heavier physically, always won. (…) The household was pervaded by this atmosphere of a calm adult woman and a man who gave in to his animal impulses. (…) And this, too, Charley tended to accept, because first of all he wasn’t as quick with his tongue as she – and, in the final analysis, he imagined that since she was more intelligent and educated than he then she must, when they disagreed, be right.

Dick, Philip K. (2005 [1975]) Confessions of a Crap Artist. London: Gollancz, pp. 74, 77 e 79-80.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Marcos 10, 43-44

Depois de Maria Madalena, Binoche oferece-nos agora em Alguns Dias em Setembro uma actuação ela própria cristã, na medida em que verdadeira distinção significa serviço. A Ayn Rand é que havia de odiar.

terça-feira, setembro 19, 2006

A Dália Negra

Evelyn Mulwray: She's my daughter.

[Gittes slaps Evelyn]

Jake Gittes: I said I want the truth!

Evelyn Mulwray: She's my sister...

[slap]

Evelyn Mulwray: She's my daughter...

[slap]

Evelyn Mulwray: My sister, my daughter.

[More slaps]

Jake Gittes: I said I want the truth!

Evelyn Mulwray: She's my sister AND my daughter!

Robert Towne, Chinatown


Fui ontem à antestreia. Que aprendi? Temo que pouco. Tem bons valores de produção mas é um pastelão. De resto, era escusado demonstrarem-nos, como De Palma parece empenhar-se em fazer, que a Swank é muitas vezes a actriz que a Johansson poderá ser, escusado maximizar a assimetria. Enfim, nem filha nem irmã: enteada.

quarta-feira, setembro 13, 2006

segunda-feira, setembro 11, 2006

23%

É a percentagem de professos católicos (com 15 e mais anos) com prática dominical. Acabo de fazer as contas combinando informação do recenseamento geral da população, da responsabilidade do INE, e do recenseamento da prática dominical levado a cabo pela Igreja Católica.

sábado, setembro 09, 2006

Vim no carro a ouvir o original de «Making plans for Nigel». É difícil exagerar um elogio à imaginação musical que permitiu aos Nouvelle Vague extrair ouro de tão infecta porcaria.

quarta-feira, agosto 30, 2006

sábado, agosto 26, 2006

quinta-feira, agosto 17, 2006



Vi ontem A Batalha de Argel. Cheguei ao filme via John Milius, que numa entrevista diz que a Batalha e The Searchers são o supra-sumo da barbatana. Pergunto-me porque há tão pouco bruá acerca do filme. Sobretudo hoje.

sexta-feira, agosto 11, 2006

quarta-feira, agosto 09, 2006

264.978

Beneficiários com processamento do Rendimento Social de Inserção em Junho de 2006.

domingo, julho 23, 2006

Pop Culture

Já tinha deparado com uma frase de Gandhi no último do Robbie Williams. As leituras de férias levaram-me a identificar também uma de Santo Agostinho. Toda a arte é criada em contexto e joga em tais reconhecimentos, mas por vezes estes não são exactamente os que esperaríamos. Levanta-se assim a questão de saber se existe popalhada posh camuflada no próprio coração do hit parade e, no caso afirmativo, qual a relação entre os seus consumidores que estão ou não habilitados à perversa forma de distinção que consiste em reconhecê-la como tal.
Fui pitagórico enquanto criança: detestava favas.

domingo, julho 16, 2006

sexta-feira, julho 07, 2006

Revivalismo II

Não partilho dos traumas causados pelo Marco a todo uma geração .......... pois... simplesmente o Marco não fez parte da minha infância... nem o Marco nem a mãe de quem tanto ouvi falar ao longo dos ultimos 25 anos. A minha infância televisiva começou com a ilha das crianças e com o chapi chapo mas rapidamente passou para o goldorak que competia com o desenho animado da minha irmã a Candy, sem qualquer hipotese para a Candy. Juntos víamos a Heidi... mas em alemão...Vindos do espaço tinha o capitão Flam, o San ku kai (não liguem ao ganso... está a mais), lembro-me que dava ao sábado e era o meu preferido, e o Ulysses 31, no princípio dos 80´s que dava no canal regional, um produto regional que fez sucesso no mundo inteiro... o Marco da infância da maior parte de vós, não estava lá... infelizmente, só ouvi falar dele quando cá cheguei.. tinha 9 anos. A partir daí temos em comum isto... e do espaço esta série

quarta-feira, julho 05, 2006

O nacionalismo é demasiado bom para que o abandonemos aos fachos. Infelizmente, a nossa intelligentsia tem um reflexo condicionado face ao desporto de massas: ao som do apito do árbitro abocanha de imediato o ganho de distinção. Volta Adorno, estás perdoado.

NOT!

terça-feira, julho 04, 2006

Boaventura de Sousa Santos

"As pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza"

sábado, julho 01, 2006

Agradeço também ao Professor Freitas do Amaral a agradável supresa que foi o seu serviço à pátria como Ministro dos Negócios Estrangeiros do XVII Governo Constitucional. Votos de rápidas melhoras.
Ricardo: para a Inglaterra, o serafim às portas do Éden.

domingo, junho 25, 2006

A long time ago...

Ando numa de revivalismo... andei na net e encontrei uns clips que já não via há....

desde a Minogue há mais de 20 anos atrás... à roupinha das doce no festival ver... ou ainda à Sabrina e os saltos na piscina, passando por aquela música dos Europe que tivemos que gramar durante muito tempo, meses a fio porque na altura o nº um do top era o mesmo durante meses... e vejam a bela montagem do festival da canção a introduzir o sobe, sobe balão sobe em 1979... divirtam-se...

quarta-feira, junho 21, 2006

Ainda a propósito de valores

Ocorreu-me disponibilizar aqui um link para o working paper de Maria Fátima Rocha e Aurora A. C. Teixeira que liga corrupção e copianço. Boa leitura.

quarta-feira, junho 07, 2006

Febra de The Rebel Sell

In fact, the critique of mass society has been one of the most powerful forces driving consumerism for the past forty years. (Heath & Potter, 2006 [2005]: 101)

quinta-feira, junho 01, 2006

A avaliação dos professores

De avaliações de desempenho arbitrárias já está o país cheio. Os professores têm de ser avaliados pelo residual dos resultados dos seus alunos em exames nacionais em condição de double blind, obtidos a partir de um modelo de regressão que tenha por variáveis independentes o capital cultural da família de origem dos alunos e a formação que estes tiverem recebido anteriormente, o que defenderá os professores que têm alunos difíceis e lhes permitirá, se for caso disso, alcançar as melhores notas. Nada complicado para quem saiba um mínimo de estatística e de sociologia. O que me surpreende é que ante tal simplicidade se proponham metodologias manhosíssimas, capazes de desgraçar ainda mais a relação de poderes no interior do sistema de ensino.

quarta-feira, maio 31, 2006

O Guardian oferecia

Pois, tempo pretérito. O link deixou de funcionar.

Enfim, era PJ Harvey: gaja, guitarra e caixa de ritmos. Puro génio.

terça-feira, maio 30, 2006

Hoje foi dia de memento mori, de furar a bazófia e deixar sair algum ar quente. Enfim, escrevo para vos comunicar um neologismo cunhado por um amigo num momento mais feliz: estereotripar. Fazêmo-lo amiúde.

quinta-feira, maio 25, 2006

São Schuman (é uma questão de tempo) foi um gajo culturalmente miscigenado, a linha da fronteira passou de um lado para o outros sobre as cabeças da sua família pelo menos um par de vezes. Não fora essa impureza seminal, podíamos estar todos mortos ou nem sequer termos nascido. Como disse Philip K. Dick: se achas este mundo mau, havias de ver alguns dos outros.

quarta-feira, maio 24, 2006

Posta de Economia e Sociedade

When the number of competitors increases in relation to the profit span, the participants become interested in curbing competition. Usually one group of competitors takes some externally identifiable characteristic of another group of (actual or potential) competitors - race, language, religion, local or social origin, descent, residence, etc. - as a pretext for attempting their exclusion (Weber [1914] 1978: 341-342).

domingo, maio 21, 2006

Radio Free Albemuth

Exelentes notícias: dois sites (I e II) refutam a ideia de que Philip K. Dick preferiria VALIS a Radio Free Albemuth.
Acabei de ler O Código da Vinci de Dan Brown e fui de seguida ver o filme. Se ainda não caíram na esparrela, recomendo que substituam o segundo pela Maria Madalena do Abel Ferrara, também em exibição em Lisboa. Quanto ao primeiro, tenho apenas um contributo a dar ao rol de virtudes e defeitos. Trata-se de uma virtude, ou melhor, de algo social e comercialmente eficaz: o livro encontra-se polvilhado de referências artísticas, científicas e literárias que são susceptíveis de serem apropriadas pelo público de nível cultural médio para efeitos da sua vassalagem nominal à alta cultura.

Aliás, uma estratégia similar foi utilizada pelo autor anónimo da lista de membros do Priorado de Sião. Terei um dia de escrever algo de consequente sobre name dropping e pensamento mágico.

terça-feira, maio 09, 2006

Classified MoD report reveals the secrets behind UFOs

Experts have uncovered a secret Ministry of Defence (MoD) report asserting that UFOs exist, explaining the phenomena and assessing the security threat they may pose to the UK. The report was unearthed by academics at Sheffield Hallam University using the Freedom of Information Act...

segunda-feira, maio 08, 2006

Se Bourdieu fosse vivo...

...sacava um capítulo inteiro da actualização de A Distinção só com base na moda da Moleskine que, aliás, já deve ter entrado no seu troço descendente, ver popularizante.

domingo, maio 07, 2006

Diz a Wikipedia que...

Humphrey the cat lived at 10 Downing Street and its associated buildings from 1989 to 1997, from the days of Margaret Thatcher to Tony Blair. He was named after the fictional mandarin.

sábado, maio 06, 2006

A corrupção não é apenas danosa em si mas também gera, por via da impunidade, uma externalidade cultural gravíssima que a reproduz e multiplica.

sexta-feira, maio 05, 2006

Vem a propósito...

do post anterior!

Gestão no Reino Animal

Todos os dias, a formiga chegava cedinho à oficina e desatava a trabalhar. Produzia e era feliz.

O gerente, o leão, estranhou que a formiga trabalhasse sem supervisão. Se ela produzia tanto sem supervisão, melhor seria supervisionada...

E contratou uma barata, que tinha muita experiência como supervisora e fazia belíssimos relatórios.

A primeira preocupação da barata foi a de estabelecer um horário para entrada e saída da formiga.

De seguida, a barata precisou de uma secretária para a ajudar a preparar os relatórios e contratou uma aranha que além do mais, organizava os arquivos e controlava as ligações telefónicas.

O leão ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com índices de produção e análise de tendências, que eram mostrados em reuniões específicas para o efeito.

Foi então que a barata comprou um computador e uma impressora laser e admitiu a mosca para gerir o departamento de informática.

A formiga de produtiva e feliz, passou a lamentar-se com todo aquele universo de papéis e reuniões que lhe consumiam o tempo!

O leão concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga operária, trabalhava. O cargo foi dado a uma cigarra, cuja primeira medida foi comprar uma carpete e uma cadeira ortopédica para o seu gabinete.

A nova gestora, a cigarra, precisou ainda de computador e de uma assistente (que trouxe do seu anterior emprego) para ajudá-la na preparação de um plano estratégico de optimização do trabalho e no controlo do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se mostrava mais enfadada. Foi nessa altura que a cigarra, convenceu o gerente, o leão, da necessidade de fazer um estudo climático do ambiente.

Ao considerar as disponibilidades, o leão deu-se conta de que a unidade em que a formiga trabalhava já não rendia como antes; e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa, para que fizesse um diagnóstico e ugerisse soluções.

A coruja permaneceu três meses nos escritórios e fez um extenso relatório, em vários volumes que concluía : "há muita gente nesta empresa".

Adivinhem quem o leão começou por despedir?

A formiga, claro, porque "andava muito desmotivada e aborrecida".

quinta-feira, maio 04, 2006

Nota Social

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, maio 03, 2006

Enfada-me a combinação de pessimismo e avidez que encontro nos maquiavélicos. Parece-me a mais triste das aporias.
Quem não gosta de reducionismo não se meta a fazer ciência.
Roxanne, Salomé, Mata Hari. Com o ocaso da dominação masculina (wishful thinking?) esta linhagem será interrompida. Lamentá-lo-emos?