terça-feira, julho 06, 2004

Quando acaba o Inverno? Quantos anjos dançam num raio de sol? Palavras perdidas. Como os passos. As ideias chegam e partem. Trocadilhos felizes. Ou não.

segunda-feira, maio 31, 2004

Um jogo (de cartas?) no qual se defrontam ideias e os seus protagonistas. Podia chamar-se humanidade.

segunda-feira, maio 17, 2004

Os passos perdidos. Os passos em volta. As palavras perdidas em volta do teu nome. A fome e a matança. Enchidos de saudade. Fumeiro de dilemas. Doze, treze copos. Aquele a quem eu der este pedaço de pão. Segue-se um beijo. Conclui.

quarta-feira, julho 31, 2002

Férias nas ilhas gregas. À medida que visito agências de viagens e o meu conhecimento da geografia grega se expande as ilhas multiplicam-se como bactérias na caixa de Petri que é o Egeu. Em tempos, o arquipélago era, para mim, apenas composto por Creta e Santorini. Depressa me recordaram a Rodes do colosso, e então desencadeou-se a vertigem: Myconos emergiu a semana passada, seguida da reluzente esmeralda que é Corfu. Hoje, foi Paros que se ergueu das ondas.

segunda-feira, agosto 30, 1999

Não discurso mas ritmo. Palavras como tambores e dentes que rasgam a carne de um inimigo. O som de anjos que se despenham na fossa abissal: os tambores de Mória.

quarta-feira, agosto 11, 1999

Quando éramos putos moviamo-nos num espaço mais limitado mas viviamo-lo com uma intensidade à qual nos tornámos estranhos. Hoje aconteceu-me ficar sentado num automóvel à espera de algumas pessoas e tornou-se-me evidente o que se perdeu: movo-me sobre uma área muito maior do que quando criança mas sou praticamente impenetrável aos seus significados. Caerulus, o adulto, foi espoliado do tesouro de maneiras de ver que fazia a alegria de Caerulus, a criança. E nisso é cumplíce a par de vítima.

terça-feira, julho 06, 1999

Dia soturno. MGM encontrado no metro. Uma luz do passado. Por isso escrevo.

A sociologia, como arte derivativa que é, não cria, regurgita. Podemos encontrar o seu produto em poças nas carruagens dos comboios ou entupindo os urinóis dos bares nas sextas à noite.

quinta-feira, julho 01, 1999

Querer aquilo que me é reconhecido como legítimo querer; querer aquilo que é esperado que queira não é querer o suficiente. Há que fazer descarrilar a volição de forma a que ela nos leve por outros caminhos que não o de casa para o trabalho, do trabalho para o shopping ou deste para o aeroporto de onde se parte para ser fotografado frente a um monumento numa capital estrangeira.

As nossas vidas seguem irreflectidamente por corredores estreitos do seu verdadeiro espaço de potencialidades, que é infinitamente expansível pelo exercício da criatividade. Ironicamente, os 'deviantes' do Truques não merecem um título tão nobre; o seu condicionamento volitivo leva-os por trilhos bem conhecidos, isto é, normais embora negativamente sancionados. Há que reaprender a desejar.

segunda-feira, junho 28, 1999

Por um momento tudo me parece correcto; sereno; claro. As cores e texturas fazem sentido; o sabor do chá com leite também. A forma como a luz se derrama pelo teclado. Não sei que prodígio é este mas não o quero deixar escapar. Temo contudo estreitá-lo demasiado avidamente. Posso estrangulá-lo.

Percebo que estou fechado para muito daquilo que tem feito a minha vida válida. Não sou só o sujeito de uma degradação física mas também, e principalmente, o sujeito de uma degradação vital, anímica.

quarta-feira, março 24, 1999

Sou um hieroglifo tetradimensional que espera ser decifrado. Como qualquer outro símbolo não tenho significado independente da leitura que de mim seja feita. Aguardo a pedra de roseta que me desencripte; (...).

terça-feira, fevereiro 09, 1999

A ventoinha do computador oprime-me; o seu som ecoa uma submissão com a qual comprei demasiado pouco. É esse o problema de vender a alma ao Diabo. Como quer que seja, é-se sempre aldrabado.

Escrever com caneta é como que uma lufada de ar fresco num quarto onde jazeu demasiado tempo uma pessoa doente. Esse alguém poderia ser talvez uma personificação da minha criatividade: débil, irregular e esperançadamente convalescente.

Para quebrar a inércia obriguei-me a ir ver ao jornal qual a data precisa desta entrada.

A minha excelentíssima amiga MMAMM telefonou-me agora mesmo. Quer a minha ajuda para ultimar o (...).

Sinto-me estranhamente sereno.

sábado, janeiro 02, 1999

Interpreto-me como um apolíneo que, por amor ou amizade, faz demasiadas concessões a Dioniso. Condição que se agrava na minha identidade de lobo das estepes. Hoje soube dizer não com elegância e firmeza.

segunda-feira, junho 08, 1998

A inteligência assemelha-se a uma corrente de água subterrânea que, de tempos a tempos, se revela à superfí­cie em pequenas eflorescências.

segunda-feira, junho 09, 1997

Linhas de Fogo

Um cavalo de dezasseis francos;
Mais rápido do que a noite,
Mais pesado do que o luar.

A espada de uma santa, quebrada às mãos de outra
De par com uma promessa.

Um estandarte branco. Duas flores-de-lis.

Branca também a armadura.
Tinto o sangue que a tinge.

Nos amores de uma flecha
Brotou da espádua o sangue represado.

O Fogo.
O arcanjo Miguel. As batalhas.

O cárcere. A pira. Um dia em que chovia.

A verdade de uma mulher que é uma boneca de trapos;
Retalhos de sonhos cerzidos juntos.
A improbabilidade do homem que traça estas linhas;
Um sonhador sonhado.

Pelo Um?

segunda-feira, junho 10, 1996

Domina Maris

A noite é longa;
Habitam-na fantasmas e fogos fátuos.
A mim, habita-me o espectro do eu por cumprir.
Ele veio cortejar a insónia
Nos salões da minha solidão
Onde ecoa dolorosamente o cinzel
Com o qual um demónio grava
O teu rosto na minha alma
Como uma tatuagem bárbara
Em pele sensível.
Terrível imagem, o teu rosto.
Já a sua intensidade ameaça submergir-me
E a minha consciência é uma barca frágil
À mercê do vórtice de imaginar-te
Quando para exorcizar a tua face
(loucura - a tua face!),
Quando para a exorcizar resolvo esboçá-la neste poema;
Tento lavá-la de mim a tinta permanente
Para que depois a possa trancar numa gaveta
E navegar a calmaria de um sono sem sonhos.
Eis pois a forma que roda
(antes fora imunda e grossa,
pois menor seria o seu poder) no meu espírito:

Olhos negros e líquidos, famintos de horizonte.
Quem sabe se de infinito?
Orelha furada como a de um pirata,
Não como a de uma cortesã.
Rosto onde pairam melancolias aladas
Sobre uma alegria feroz
Como o reflexo do sol nas águas.
Voz salgada como o canto de uma sereia
E lábios de coral polido
Que se entreabrem para revelar o brilho
De uma dupla fileira de pérolas.
Maria é o Mar.

… ou, pelo menos, eu aqui traço linhas
Que se podem ler como uma alegoria do Mar…

E então vem, brutalmente,
Como uma onda que me arrastasse para o fundo
A consciência do que realmente estou dizendo:
Os fantasmas que pairam na minha noite íntima
São sombras de uma só ideia:
Invoco o Mar como espaço da verdadeira vida
E tomo-te por símbolo de uma realidade que me cumprisse…

Ainda assim vou enviar-te este poema
Que diz que nunca te vi como sejas
Mas apenas como me serviria que fosses
Porque fazê-lo, fazer alguma coisa,
Se parecerá mais com cumprir-me
Do que amarrotá-lo e deitar-me ao lixo.
Arremesso esta garrafa às ondas
E sento-me na praia.
Olho o horizonte.
Penso em ti.