terça-feira, julho 20, 2004

Espaço 2004

O que é um voto consciente?

The morrow

Mulheres que balançam
Em equilíbrio instável
No limiar da beleza
Sem que nela se despenhem.

Pequenos apocalipses
De pétalas semicerradas
Em torno da ameaça,
Da promessa, que vejam.

segunda-feira, julho 19, 2004

1977

De 'A scanner darkly'

In Southern California it didn't make any difference anyhow where you went; there was always the same McDonaldburger place over and over, like a circular strip that turned past you as you pretended to go somewhere. And when finally you got hungry and went to the McDonaldburger place and bought a McDonald's hamburger, it was the one they sold you last time and the time before that and so forth, back to before you were born (...).

They had by now, according to their sign, sold the same original burger fifty billion times. He wondered if it was to the same person. Life in Anaheim, California, was a comercial for itself, endlessly replayed. Nothing changed; it just spread out farther and farther in the form of neon ooze. What there was always more of had been congealed into permanence long ago, as if the automatic factory that cranked out these objects had jammed in the on position.

Philip K. Dick


Recordo-me de na minha visita aos Estados Unidos da América em 2001 ter pensado exactamente a mesma coisa acerca da Pennsylvania: era como se estivesse parado e uma equipa de efeitos especiais fizesse um loop de lona pintada passar por mim vezes sem conta. Talvez o 'Pesadelo em ar condicionado' do Henry Miller, que li na adolescência, faça uso da mesma comparação e nos tenha inspirado a ambos. À medida que, depois de 2001, fui perdendo países na Europa, encontrei a mesma coisa por todo o lado. E não apenas nas autoestradas: as 'baixas' das grandes cidades europeias são todas variações do mesmo cenário. Como se num único estúdio tivessem sido filmados vários títulos sem orçamentos de produção autónomos e tivesse havido que compor cenas diferentes com os mesmos adereços.

domingo, julho 18, 2004

The ideal free life is like a plain text mail... no attachements!
Rádio Albemuth Livre.

Do 'Discours de la servitude volontaire'

Les hommes nés sous le joug, puis nourris et élevés dans la servitude, sans regarder plus avant, se contentent de vivre comme ils sont nés et ne pensent point avoir d'autres biens ni d'autres droits que ceux qu'ils ont trouvés; ils prennent pour leur état de nature l'état de leur naissance.

Étienne de La Boétie

O bar está aberto.

Mas estou certo de que temos algo a dizer?

terça-feira, julho 06, 2004

Quando acaba o Inverno? Quantos anjos dançam num raio de sol? Palavras perdidas. Como os passos. As ideias chegam e partem. Trocadilhos felizes. Ou não.

segunda-feira, maio 31, 2004

Um jogo (de cartas?) no qual se defrontam ideias e os seus protagonistas. Podia chamar-se humanidade.

segunda-feira, maio 17, 2004

Os passos perdidos. Os passos em volta. As palavras perdidas em volta do teu nome. A fome e a matança. Enchidos de saudade. Fumeiro de dilemas. Doze, treze copos. Aquele a quem eu der este pedaço de pão. Segue-se um beijo. Conclui.

quarta-feira, julho 31, 2002

Férias nas ilhas gregas. À medida que visito agências de viagens e o meu conhecimento da geografia grega se expande as ilhas multiplicam-se como bactérias na caixa de Petri que é o Egeu. Em tempos, o arquipélago era, para mim, apenas composto por Creta e Santorini. Depressa me recordaram a Rodes do colosso, e então desencadeou-se a vertigem: Myconos emergiu a semana passada, seguida da reluzente esmeralda que é Corfu. Hoje, foi Paros que se ergueu das ondas.

segunda-feira, agosto 30, 1999

Não discurso mas ritmo. Palavras como tambores e dentes que rasgam a carne de um inimigo. O som de anjos que se despenham na fossa abissal: os tambores de Mória.

quarta-feira, agosto 11, 1999

Quando éramos putos moviamo-nos num espaço mais limitado mas viviamo-lo com uma intensidade à qual nos tornámos estranhos. Hoje aconteceu-me ficar sentado num automóvel à espera de algumas pessoas e tornou-se-me evidente o que se perdeu: movo-me sobre uma área muito maior do que quando criança mas sou praticamente impenetrável aos seus significados. Caerulus, o adulto, foi espoliado do tesouro de maneiras de ver que fazia a alegria de Caerulus, a criança. E nisso é cumplíce a par de vítima.

terça-feira, julho 06, 1999

Dia soturno. MGM encontrado no metro. Uma luz do passado. Por isso escrevo.

A sociologia, como arte derivativa que é, não cria, regurgita. Podemos encontrar o seu produto em poças nas carruagens dos comboios ou entupindo os urinóis dos bares nas sextas à noite.

quinta-feira, julho 01, 1999

Querer aquilo que me é reconhecido como legítimo querer; querer aquilo que é esperado que queira não é querer o suficiente. Há que fazer descarrilar a volição de forma a que ela nos leve por outros caminhos que não o de casa para o trabalho, do trabalho para o shopping ou deste para o aeroporto de onde se parte para ser fotografado frente a um monumento numa capital estrangeira.

As nossas vidas seguem irreflectidamente por corredores estreitos do seu verdadeiro espaço de potencialidades, que é infinitamente expansível pelo exercício da criatividade. Ironicamente, os 'deviantes' do Truques não merecem um título tão nobre; o seu condicionamento volitivo leva-os por trilhos bem conhecidos, isto é, normais embora negativamente sancionados. Há que reaprender a desejar.

segunda-feira, junho 28, 1999

Por um momento tudo me parece correcto; sereno; claro. As cores e texturas fazem sentido; o sabor do chá com leite também. A forma como a luz se derrama pelo teclado. Não sei que prodígio é este mas não o quero deixar escapar. Temo contudo estreitá-lo demasiado avidamente. Posso estrangulá-lo.

Percebo que estou fechado para muito daquilo que tem feito a minha vida válida. Não sou só o sujeito de uma degradação física mas também, e principalmente, o sujeito de uma degradação vital, anímica.